Espaço Saúde
19/05/2012
Artigo: A Morte no Contexto Hospitalar
Danielli Alves – Psicóloga Clínica Hospitalar
Dra. Elisabete Mitiko Kobayashi - Gerente Médico Técnico (Diretoria Executiva)
“A branda fala da morte não nos aterroriza por nos falar da Morte. Ela nos aterroriza por nos falar da Vida. Na verdade, a Morte nunca fala sobre si mesma. Ela sempre nos fala sobre aquilo que estamos fazendo com a própria Vida, as perdas, os sonhos que não sonhamos, os riscos que não tomamos (por medo), os suicídios lentos que perpetramos.”
(Rubem Alves)
Tal como afirma Rubem Alves, a vida está cheia de rituais para exorcizar a Morte, especialmente no âmbito hospitalar que é permeada pela morte e morrer no seu cotidiano.
Trabalhar em hospital é lidar com uma instituição em que a luta diária é entre a vida e a morte. É neste ambiente em que todas as emoções se misturam: a esperança de melhora, da cura, da minimização ou suspensão do sofrimento e o medo da dor, a angústia da internação e o pânico de enfrentar a derrota, aceitar a morte.
É de nosso conhecimento que a morte ronda os hospitais, as enfermarias, os centros cirúrgicos, os pronto-socorros e os profissionais que ali atuam. Tratando-se da área da saúde, a morte é percebida como a inimiga que deve ser vencida de qualquer forma. Portanto, mesmo sabendo que a morte é inerente à existência humana, é o maior medo universal, algo que evitamos e negamos a todo custo. Uma das estratégias da humanidade em lidar com a morte é a fé. Independente da crença, a própria ciência reconhece que a espiritualidade ajuda a pessoa a elaborar o luto. Assim, a fé se torna um uma ferramenta para nos apegarmos a esperança da vida. E que ao se correr tudo bem, a fé é reforçada e se torna uma grande vitória contra o ‘mal’, neste caso figurado pela Morte. Quando a Morte ‘vence’, a fé é abalada e nos mostra que somos vulneráveis (o corpo o é) e que ‘alguém lá em cima nos pregou uma peça. A sensação pode ser de traição e raiva, antes mesmo da tristeza da perda. Talvez este seja um dos pontos a ser trabalhado em pessoas que trabalham em setores críticos. A convivência e a luta pela vida e sobrevida nos tornam céticos e descrentes. Melhor não se envolver, pois sabemos que a luta pode ser inglória.
Tememos tanto a morte que uma das buscas dos alquimistas foi o Elixir da Longa Vida ou Elixir da Imortalidade, que era a busca universal para curar todas as doenças, prolongando a vida indefinidamente. Assim, o homem percebe e se angustia perante o seu ser-mortal, do seu ter-que-morrer e do seu não-poder-mais-ser. Neste caso, o elixir se torna os antibióticos, os medicamentos de última geração, além de aparatos médicos como monitores, respiradores etc. Quando estes não surtem efeito, a desconfiança de que houve falha humana pode aparecer.
Desta forma, participando de um contexto em que a morte aparece quase todos os dias, é essencial que os profissionais da saúde saibam elaborar o medo e a negação em relação à morte e o morrer. Mas enfrentar a morte não é criar defesas para não se envolver com o outro e não sentir, ao contrário. É comum escutar dos profissionais o seguinte mantra: “Não se envolva e não sofrerá, porque se você agir com a emoção você não irá aguentar”.
Então, cria-se a crença de que quanto mais distante você ficar, menos você irá sofrer. E sem perceber, o profissional de humano passa a ser mecânico. Ele acredita que atendimento humanizado é paciente medicado e esquece que aquele corpo doente não é só carne e osso, mas também é feito de afeto. E por maior que seja a sua couraça algum sentimento será eliciado, mas o medo de sofrer, o medo de se sentir impotente por não salvar a vida em questão o fará se esquivar das suas emoções e gradativamente ele se “intoxica” de sentimentos que não são elaborados adequadamente e futuramente poderá somatizá-los.
Importante ressaltar que há tempos as pessoas morriam em casa, bem como eram veladas no ambiente familiar por toda a noite. Porém, com o avanço da medicina a maioria das pessoas que estão prestes a morrer passam seus últimos dias no hospital e a equipe de saúde torna-se também a sua família. Tais profissionais estão constantemente encarando o sofrimento e a morte.
Assim, o profissional inserido neste contexto se vê diante de duas espécies de angustias:
• A repetição das mortes e a impossibilidade de dominá-la afirma ao sujeito o fantasma de sua própria morte (fragilidade).
• A morte de um paciente faz o sujeito reviver as suas experiências anteriores de confrontação com a morte de pessoas queridas e familiares.
Desta forma, devemos ter a consciência de que sempre seremos mobilizados por sentimentos e fantasias das mais variadas intensidades e o melhor caminho é aceitá-los e manifestá-los. Não é vergonha e nem sinal de fraqueza do médico, da enfermeira, do fisioterapeuta (e outros profissionais) chorar diante da morte do paciente. Então, a dor é um processo natural pelo qual passamos depois de uma grande perda. Apesar desse processo ser difícil e doloroso, ele não tem que nos imobilizar, ao contrário, aprendemos a lidar com ele. O fato de aceitar a Morte como uma passagem, e não o fim da vida, torna mais leve o fardo de algumas pessoas. Somente a crença de que existe a vida após a morte ou um lugar chamado de céu nos conforta e nos permite aceitar a perda. Mas de alguma maneira nos fragiliza, pois nos faz pensar que somos mortais e que se pudesse escolher, aquele tipo de morte não seria o que escolheríamos. Desse modo, o hospital realmente nos mostra uma face da morte que muitas vezes não é digna, pois expõe o paciente a tubos, sondas,respiradores, deixando o lado humano, mesmo que seja a favor da vida. O funcionário pode achar que aquele que ali está não é um ser humano, pois perdeu a dignidade, perdeu a consciência e não tem o poder de escolha. Mas talvez se esqueça que aquele que ali está quer viver e luta a cada segundo por um sopro de vida.
E uma vez que o profissional da saúde aceita a morte como mais uma fase da vida e sabe encará-la sem temer a dor, este estará preparado para permitir que o outro possa morrer com dignidade, que é oferecer não somente os melhores recursos, mas carinho, afeto, segurança. É não permitir que a pessoa morra só, longe do calor daqueles que ama. E quando a família não estiver ao lado, será o profissional da saúde aquele quem permitirá que o outro não se sinta só na sua despedida da vida e acolherá com respeito a dor da família e dos amigos, pois quando se morre no hospital é lá onde acontece o primeiro adeus.
A única certeza que temos na vida é a de que todos vivenciarão o inefável, mas nossas limitações humanas muitas vezes não nos permitem aceitar a morte como uma etapa da vida, assim não aprendermos como morrer. E todos os dias deixamos escapar os momentos de aprendizagem da morte. Falar sobre morte, principalmente no ambiente hospitalar, é um assunto essencial à felicidade, pois não é só porque ao final de tudo a morte nos espera, mas porque enquanto vivemos, morremos de várias formas, todos os dias.
Portanto, é de extrema importância que os profissionais de saúde reflitam no efeito humanizador ao estarem mais próximos de seus doentes ao longo de todo o tratamento e de oferecer amparo para faciliar as expressões de todos os sentimentos eliciados: de rejeição, raiva, isolamento e abandono, assim minimizará o sofrimento de ambos e facilitará a compreensão das fases de evolução psicológica da doença e da morte, favorecendo a vivência da grandeza de uma relação humanitária, pois não escapamos da possibilidade de um dia ocupar o leito do hospital e, sem dúvida, a morte chegará para nós porque somos todos “pacientes” da vida e essa será mais uma etapa vencida.